terça-feira, 1 de abril de 2008

Fumar bloqueia os neurónios e provoca ataques de estupidez e imbecilidade

«Esta é uma medida que visa recuperar os clientes fumadores, impedidos de fumar no interior dos cafés pela nova lei do Tabaco.

"Este projecto surgiu no âmbito da entrada em vigor da nova lei do tabaco, recolhemos algumas sugestões alternativas para espaços exteriores e vamos lançar duas estruturas de esplanadas: uma da Sagres, dedicada especialmente ao Euro2008, e outra estruturada para todo o ano, mas ambas com um ambiente acolhedor e mobiliário mais confortável", explicou à Lusa Nuno Pinto de Magalhães, da Sociedade Central de Cervejas (SCC), uma das empresas envolvidas.

Em parceria com a Galp Energia e a Sport TV, a Associação da Restauração e Similares de Portugal (ARESP) e a Central de Cervejas vão apostar em novos espaços com aquecedores exteriores, pára-ventos, ecrãs para transmitir futebol e outros programas, bem como em cadeiras mais ergonómicas e cómodas, tudo rodeado por um ambiente acolhedor.

"O principal objectivo é devolver aos fumadores um espaço confortável onde possam estar e onde todos possam conviver novamente", sublinhou Pinto de Magalhães.

A nível nacional estão já previstas cerca de 50 esplanadas Sagres e dez estruturas a longo prazo, que irão ter, segundo o assessor, toda a "comodidade e infra-estruturas necessárias".

"Estamos a desenvolver parcerias com algumas Câmaras Municipais que já se mostraram interessadas em juntar-se ao projecto e os estabelecimentos podem, em conjunto com as autarquias, adquirir este tipo de estruturas", explicou o assessor.

Estas esplanadas são apresentadas na Horexpo - Salão Internacional de Hotelaria, Restauração e Vending, em Lisboa, e Pinto de Magalhães acredita que o número de pedidos pode ainda aumentar.

Com a nova lei do tabaco, que entrou em vigor a 1 de Janeiro, é proibido fumar nos serviços públicos e nos locais de atendimento directo ao público, nos locais de trabalho, unidades de saúde, lares de idosos, estabelecimentos de ensino, museus e centros culturais, centros comerciais, estabelecimentos hoteleiros, aeroportos e nos meios de transporte.

A lei prevê contudo algumas excepções, permitindo a criação de espaços próprios para fumadores desde que cumpram os seguintes requisitos: as áreas estarem devidamente sinalizadas e separadas fisicamente das restantes instalações ou disporem de dispositivos de ventilação adequados e a existência de um sistema de extracção de fumo directamente para o exterior.

As multas para quem puxar de um cigarro em espaços fechados e fora das zonas previstas para fumadores oscilam entre os 50 e os 750 euros e entre os 50 e os mil euros para os proprietários de estabelecimentos privados e órgãos directivos dos serviços da Administração Pública que não cumpram a legislação.»

Agência Lusa, 31.03.08.


Será necessário mais alguma coisa, depois disto? Será realmente incomensurável a estupidez dos fumadores? Será possível que o tabaco iniba totalmente o raciocínio?

Bom, para quem fuma uma média de 3 maços por dia, como é o meu caso, não vou jurar que não tenha ficado totalmente estúpido, visto que me intoxico sistematicamente há mais de trinta e cinco anos, mas ao menos esta acho que entendi: com que então, desde que existam lonas em vez de paredes, já não há problema nenhum, não é isso? Se o "espaço" não for totalmente fechado, se tiver umas frinchinhas por onde entre o ar, se houver painéis em acrílico ou plástico em vez de tijolos e argamassa, já não é um "espaço público", não é assim? Desde que o local seja amovível, em vez de em alvenaria, então tudo jóia, a lei já não se aplica! Como se não fosse possível "mover" uma casa, à força de camartelo, e pô-la no chão em menos de um fósforo! Como se num "estabelecimento convencional" não existissem portas e janelas e frinchas e as mesmíssimas correntes de ar! Como se, enfim, fossemos todos, fumadores e não fumadores, uma cambada de mentecaptos, incapazes de entender a mais evidente, ridícula, nojenta das vigarices!

O proprietário de um simples café de bairro não pode optar pelo letreiro azul, tal é a carga de despesas e de chatices em que se iria meter, mas se a coisa for patrocinada pela Sociedade Central de Cervejas, e se a dita Sociedade Central de Cervejas mandar à merda o Governo, a ASAE, a DGS, a legislação antitabagista, os legisladores que semelhante cagada produziram e ainda o mais elementar senso comum, então sim, já pode, não há crise. Eis, em linhas gerais e no essencial, o que esta notícia veicula. A pretexto do Campeonato da Europa de Futebol e das frinchas que existem entre os panos das tendas, escorados em tão belos quanto cretinos álibis, os felizes empresários da indústria cervejeira - com o beneplácito e a cobertura das entidades governamentais - preparam-se agora para impingir mais esta patranha a toda a pátria tuga, por atacado.

Com esta maravilhosa descoberta científica, provinda de tão ilustres cabecinhas, fica a humanidade em geral e a terra lusitana em particular municiada de uma nova, porém antiga modalidade de restauração (e afins): a hotelaria nómada. Lá voltaremos, assim sendo, aos bons velhos tempos do monta-tenda, desmonta-tenda; nada má, a ideia, realmente; uma cafetaria ambulante, devemos concordar, e quem diz cafetaria diz discoteca ou tasca, pois é mesmo muito bem pensado. Com suavíssimas e drapejantes paredes e tectos em pano ou em tela, de facto, muito menos gente - quase ninguém - se arriscará a dar cabeçadas inadvertidas ou a partir algum osso numa ombreira, por exemplo. Claro que não dará muito jeito para um gajo encostar o pé à parede, também por exemplo, porque não está lá parede nenhuma, mas a gente acaba por se habituar, é como tudo. Sim senhor. Nada mal lembrado. Eles, nesta, esmeraram-se.

Bem. Mas quem é que "eles" pensam que enganam? Com que espécie de totós é que "eles" pensam que estão a lidar? E, já agora, quem são "eles", afinal?

"Eles" são os mesmos que andaram décadas a promover o cigarro como um bem em si, como factor de prestígio e como sinal de distinção e de promoção social. "Eles" são aqueles que defendem hoje, com unhas e dentes, raivosos como mastins, o que ainda ontem lhes era completamente indiferente. "Eles" são os iluminados politicamente correctos, os que se julgam tocados pelo dever de obrigar todos os outros a não comer uma simples maçã, até a de Adão, se esse fruto não estiver devidamente calibrado, desinfectado, etiquetado e validado para consumo. "Eles" são os polícias de costumes modernaços, são aqueles tipinhos e tipinhas que, imbuídos de espírito de missão (ou o diabo que os carregue), sinceramente acreditam que o próprio Deus, em pessoa, lhes tocou no ombro e lhes disse, com voz cavernosa: "Ide, e chateai o vosso semelhante."

São apóstolos de um novo Deus, atlético e em forma, sorridente - já não de pura bondade mas à força de muitas idas ao dentista - e compassivo, por um lado, mas terrivelmente vingativo e implacável para com os desgraçados que se atreverem a penetrar no McDonald's, na Pizza Hut, na Ginjinha do Rossio ou em qualquer outro templo da dissolução e do vício. É um Deus da norma e do regulamento, extremamente higiénico, porque impoluto passou de moda, que exige dos seus fiéis uma confiança absolutamente cega em todos os Seus dogmas e ditames, já que em troca da fé, e também da cegueira, aos ditos fiéis está prometida e reservada uma estadia grátis no Paraíso para toda a eternidade; ou seja, os tipos estão convencidos de que, lá por não fumar e não comer nem beber porcarias, vão andar por aí aos caídos até que a vaca tussa, por assim dizer.

Pois a mim não convencem eles. Quero lá saber do Paraíso para alguma coisa. Não gramo férias nem à lei da bala e, além disso, acho chato como o raio essa coisa de andar por aí indefinidamente, com guizos nos pés e asinhas nas costas, a maçar toda a gente com uma musiquinha que tem tanto de celestial como de aborrecida. Chateia-me mortalmente fazer figura de parvo, em suma, e nem que me pagassem um balúrdio por mês eu iria aguentar essa chatice da vida eterna, ou lá o que é.

Mas enfim, deixemos esse tipo de trapalhadas, vida eterna, sítios pouco recomendáveis onde um gajo tem de ficar a ver passar os comboios, anjinhos com suas harpas, e assim, voltemos à terra e a coisas mais comezinhas e tangíveis.

Em suma, era isto. Para esses escuteiros da saúde compulsiva, para esses soldadinhos de chumbo do exército de salvação forçada, para toda essa gentinha que, certamente imbuída das melhores intenções, pretende conduzir-me de volta ao bom caminho ou fazer-me regressar ao redil da pureza e da magreza, do ar puro e da silhueta esbelta, duas palavrinhas: vão bardamerda. Quanto aos outros, os émulos legais, policiais e governamentais, mai-los seus acólitos industriais da cervejola marada, para esses não vão duas palavras mas apenas uma: também.




Ao abrigo da lei e aproveitando esta "ideia", aqui ficam algumas sugestões para donos de tascas, restaurantes, cafés, discotecas, bares, etc.
1. Parta as paredes do estabelecimento e substitua-as por lonas, mantendo os pilares e traves-mestras; logo a seguir, corra à Conservatória do Registo Predial e altere a inscrição na matriz para "esplanada".
2. Se os gajos da inspecção refilarem por causa de o tecto ser em telha, ponha uma cobertura de lona por cima da telha.
3. Se não quiser gramar com o esterco das obras, arranque apenas as portas e as janelas e monte a tenda pelo lado de dentro do estabelecimento; pode aproveitar os pilares da construção para pendurar a dita, poupando assim nos varões de prumo e nas estacas de fixação.
4. Caso o chateiem por afinal aquela merda ser uma casa com uma tenda lá dentro, responda com o ar mais sério deste mundo que não senhor, que é uma tenda com uma decoração exterior futurista (ou passadista, à escolha). E, principalmente, não se esqueça de referir que aquilo ali entra ar por todos os lados. E do bom.
5. Se "eles" (já sabe quem são) não forem na conversa, então lá terá de ser: arranje uma unidade de artilharia (ofereça-lhes umas bejecas à borla, a tropa é muito dada a ajudar o próximo) e eles que mandem o edifício pelos ares, com toda a limpeza; depois de remover algum resto de entulho que lá fique, monte a tenda no terreno livre e inaugure o seu novo estabelecimento, completamente remodelado e exclusivamente para fumadores.
6. No caso (improvável) de "eles" andarem a rondar-lhe a porta, não se acanhe: em vez de artilharia pesada, dê uma palavrinha a qualquer bacano da Força Aérea. Vai ver que eles não se importam nada de lhe despejar umas bombas de fragmentação mesmo em cheio na porcaria do boteco. Então sim, depois de tapar o buraco poderá finalmente montar a sua legalíssima, óptima, porreiraça tendinha de comes e bebes (ou afim).

Com um bocadinho de sorte, com esta solução, se calhar vai passar a pagar menos impostos (as tendas pagam impostos?) e ainda por cima os tipos da Super Bock terão o maior prazer em ganhar à concorrência mais um ponto de venda, por um lado, e pagar-lhe a si um dinheirão pela publicidade, por outro.

Uma mina.

3 comentários:

Curiosa disse...

JPG,

Disse tudo.
Total concordância, sem mais a acrescentar.

Curiosa disse...

Vi hoje na SicN uma notícia sobre o evento "Peixe em Lisboa [ http://lazer.publico.clix.pt/artigo.asp?id=196641 ].

Para espanto, os chefes e auxiliares (da fina flor da restauração lisboeta) mostrados nos seus stands a trabalhar não cumpriam as regras, como por exemplo o uso de luvas e a cabeça coberta.

E esta hei...

JPG disse...

Claro. Um "chef" não pode, a não ser em circunstâncias muito especiais, usar luvas, mas não é por isso que não são fiscalizados pela ASAE; é pela mesma razão que também o não são os estabelecimentos da McDonalds', por exemplo.