segunda-feira, 7 de abril de 2008

Confirmação e Pontuacão - 4


Restaurante Luizinho
Rua do Neto, 6
2675 Odivelas
Telefone: 219 310 079
http://luizinho.restaunet.pt/APRESENTA.asp



snap map

  • A sala de fumadores, das três que o restaurante possui, é a dos fundos, onde o extractor é inexistente e o aparelho de ar condicionado é apenas um enfeite no tecto.
  • Nesta sala diminuta, com capacidade para 30 pessoas, a ventilação é feita por umas micro-janelas junto ao tecto, que por sinal estavam fechadas.
  • Jantar de grupo com menu por 13,50€: grelhada mista + sumos, água e sangria + café + bolo de aniversário + espumante.
  • Serviço lento e de má qualidade: o paté de entrada parecia sopa de peixe para bebés; as carnes foram servidas às prestações e os acompanhamentos começaram a chegar 10 minutos depois da grelhada servida, contrastando o frio arroz branco sem sal com o excesso do mesmo na carne; a desonrosa sangria só tinha a denominação.

Numa mesa de 20 pessoas, diversos convivas tecem elogios a refeições anteriores, apesar de este ter sido o primeiro jantar com ementa de grupo. Da minha parte, não encontro elogios a tecer. Foi a primeira, e de certo que terá sido a única vez que fui ao afamado Luizinho.

O tempo de espera entre os grelhados e os acompanhamentos foi surreal. As travessas eram colocadas sem nexo na mesa, e os convivas que as passassem entre si (foi esta a resposta que recebi do empregado que nos estava a servir, ao perguntar pela salada), e já bebi sangria engarrafada bem melhor do que aquela água de lavar copos. Escapou as batatas fritas, por não serem de pacote nem pré-cozinhadas, e o bolo de aniversário.

Poderão dizer-me: por 13,50€, não se pode esperar muito. Pois eu espero, ou não tivesse já comido muito bem em tascas por 10€, mas isso foi antes do anti-tabagismo.

Não tivesse sido o aniversário de um amigo e o humor feito em torno do péssimo serviço prestado, como também os grandes ossos das entremeadas para o cão roer, seria um "abaixo de cão".



Esta crítica foi realizada pela vizinha Curiosa, que atribuiu a cotacão (de cão) ao restaurante Luizinho.

Esta apreciação, bem como a cotacão atribuída, resultam de uma única visita e constituem a expressão de uma simples opinião, devendo por conseguinte ser consideradas como isso mesmo, opinião num artigo de opinião.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

'Tá bem, abelha

«Cell phone mobile radiation could heat the side of the head or potentially thermoelectrically interact with the brain to convert the user's head into an antenna.
Cell phones were the focus of a 15-month study by an award-winning cancer expert who says the handsets are more dangerous than smoking cigarettes».

By: Kristin Turner
Apr 1, 2008, 11:10 AM EDT


"A radiação dos telemóveis pode induzir aquecimento na cabeça ou interagir termoelectricamente com o cérebro, convertendo a cabeça da pessoa numa antena.
Os telefones móveis foram exaustivamente analisados num estudo realizado ao longo de quinze meses, da autoria de um perito em oncologia vencedor de diversos prémios, que diz serem estes aparelhos mais perigosos do que o tabaco.
"

Pois é, já tinha havido por aí uns zum-zuns mas, como não existe ainda uma indústria com interesses no ramo (medicinas alternativas, ginásios, medicamentos, etc.), para já a coisa fica assim. Até ver. As invenções mirabolantes e a perseguição fundamentalista ao telemóvel apenas surgirão quando isso convier a uma nova e florescente máfia de industriais; e só nessa altura, muito provavelmente quando se esgotar o filão do anti-tabagismo, surgirão os movimentos terroristas - tradicionalmente travestidos de ecologistas e de amiguinhos da saúde - que se encarregarão de, mais uma vez, espalhar militantemente a "boa nova": afinal, o mal, o verdadeiro Mal, reside no maldito telelé.

Esse futuramente proscrito aparelhinho reúne todas as condições para substituir o cigarrito como alvo a abater: foi, desde sempre, considerado como factor de prestígio e de promoção social; é altamente viciante e provoca dependência psíquica e, de certa forma, também física; os agarrados sentem prazer no seu manuseamento, chegando a utilizá-lo por tudo e por nada, mesmo quando não têm qualquer necessidade para isso; alguns dos mais dependentes chegam a sentir verdadeiro prazer físico, seja quando compram mais um, seja simplesmente quando isso os faz sentir mais próximos dos outros, menos sós, como pertencendo a uma comunidade; no fundo, aquilo é um amigo fiel, um companheiro divertido, algo que ajuda qualquer pessoa a passar menos mal pelo inferno do quotidiano.

Exactamente como o tabaco, está bem de ver. E as semelhanças - o que se pode dizer de uma coisa, pode dizer-se também da outra - não ficam por aqui: ambos são vícios extremamente caros (logo, muitíssimo apetecíveis para as máfias industriais) e ambos contêm um carácter de individualidade, independência e liberdade que não convêm nada, mas mesmo nada, ao statu quo politicamente correcto.

A lógica da dependência é rigorosamente a mesma, num caso e noutro. Adivinhar o futuro, assim, é tão fácil que até chateia.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O urso Bibinho da Silba


http://www.youtube.com/watch?v=5UJvOR0udqs

Uma animação 3D dobrada por um (berdadeiro) artista do Nuorte, carago. E há lá mais para ber, afianço-bos: o mesmo ursinho Bibo a dar uma de Bruce Lee e o Sapo Cocas no conhecidíssimo anúncio do BMW Compact.

De chorar a rir. Baleu.

Via (digo, bia) Q208

Perdão?

«02/04/2008 - 18h52
Cientistas descobrem gene responsável pelo câncer de pulmão
da Folha Online
da France Presse, em Paris

O risco de uma pessoa ter câncer no pulmão dependeria de variações genéticas individuais, de acordo com pesquisas publicadas nesta quarta-feira pelas revistas científicas "Nature" e pela "Nature Genetics".

A descoberta, feita por três diferentes equipes de pesquisadores, aponta variações associadas ao risco de câncer no pulmão situadas no cromossomo 15, apesar de os autores divergirem sobre se esta é ou não uma relação direta com a dependência à nicotina.

"O fumo é responsável por 9 em cada 10 casos de câncer no pulmão, mas essas pesquisas mostram que certos fumantes têm ainda mais risco de adquirir esse tipo de doença devido ao seu perfil genético", afirma o cientista britânico Lesley Walker.

Segundo os estudos, um fumante que possui a variação genética indicada tem 80% mais chances de desenvolver câncer do que um fumante que não apresenta tais variações.

As pesquisas ainda apontam que o risco de câncer no pulmão é quase duas vezes superior nas pessoas que possuem as variações genéticas com relação àquelas que não as possuem.

"O risco atribuído a este grupo de indicadores representa 15% dos casos de câncer de pulmão", afirma Mark Lathrop, diretor científico da fundação Jean Dausset e diretor do Centro Nacional de Genotipagem da França.

Nicotina

A região do cromossomo 15 identificada por estes estudos contém genes de receptores de nicotina que poderiam desempenhar um importante papel na formação do câncer, favorecendo a fixação da nicotina sobre as células, assim como de outros produtos tóxicos.

Segundo outra hipótese apresentada, é a predisposição à dependência de tabaco que favoreceria o consumo e por conseguinte o risco de câncer.

"Esses resultados poderão abrir novos caminhos para desenvolver e melhorar os tratamentos", diz Paul Brennan, do CIRC (Centro Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, na sigla em inglês), da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Os pesquisadores estudaram os genes de mais de 35 mil pessoas na Europa, Canadá e nos Estados Unidos. A pesquisa envolveu apenas pessoas descendentes de europeus. Segundo os cientistas, novos estudos serão realizados envolvendo pessoas de origens africanas e asiáticas.
»

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Portugal patético, 2008

E agora, para mais, ficara lá um homenzinho a fazer música clássica…
- É o meu amigo Cruges!
- Ah!, é seu amigo? Pois olhe, devia ter-lhe dito que tocasse antes o «Pirolito»!
- Vossa Excelência aflige-me com esse desdém pelos grandes mestres… Não quer que a vá acompanhar à carruagem? Paciência… Muito boa noite, Sr.ª D. Joana!… Um servo seu, senhora baronesa! E Deus lhe tire a sua dor de cabeça!
Ela voltou-se ainda no degrau, para o ameaçar risonhamente com o leque:
- Não seja impostor! O sr. Ega não acredita em Deus.
- Perdão… Que o Diabo lhe tire a sua dor de cabeça, senhora baronesa!
O velho democrata desaparecera, discretamente. E, da antessala, Ega avistou logo ao fundo, no tablado, sobre um mocho muito baixo que lhe fazia roçar pelo chão as longas abas da casaca - o Cruges, com o nariz bicudo contra o caderno da Sonata, martelando sabiamente o teclado. Foi então subindo em pontas de pés pela coxia tapetada de vermelho, agora desafogada, quase vazia; um ar mais fresco circulava; as senhoras, cansadas, bocejavam por detrás dos leques.
Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na mesma fila com todo um rancho íntimo, a marquesa de Soutal, as duas Pedrosos, a Teresa Darque. E a boa D. Maria tocou-lhe logo no braço para saber quem era aquele músico de cabeleira.
- Um amigo meu, murmurou Ega. Um grande maestro, o Cruges.
O Cruges… O nome correu entre as senhoras, que o não conheciam. E era composição dele, aquela coisa triste?
- É de Beethoven, sr.ª D. Maria da Cunha, a "Sonata Patética".
Uma das Pedrosos não percebera bem o nome da Sonata. E a marquesa de Soutal, muito séria, muito bela, cheirando devagar um frasquinho de sais, disse que era a "Sonata Pateta".
Por toda a bancada foi um rastilho de risos sufocados. A Sonata Pateta! Aquilo parecia divino!
Da extremidade o Vargas gordo, o das corridas, estendeu a face enorme, imberbe e cor de papoula:
- Muito bem, senhora marquesa, muito catita!

Eça de Queiroz, Os Maias


terça-feira, 1 de abril de 2008

O meu amigo Afonso

O meu amigo Afonso é muito simpático, elegante, altivo sem ser arrogante. E esperto, principalmente esperto. Ah, claro, pois claro, faltou dizer, é lindíssimo: de uma beleza suave e mansa, tão mansa quanto o seu feitio e tão suave quanto a sua bonomia pachorrenta.

Sempre o achei calmo e bem disposto, e mesmo agora, ainda há pouco, o vi a rilhar placidamente um biscoito, sentado na relva, entre malmequeres.

A notícia caiu-me em cima à traição, como uma paulada: foi-lhe diagnosticado cancro do pulmão. Deram-lhe quinze dias de vida, no máximo.

Lá em casa ninguém fuma, nunca ninguém fumou. E também, que diabo, o Afonso é um atleta, sempre foi, é capaz de andar quilómetros e quilómetros sem um queixume, sempre sorridente e satisfeito. Não é muito amigo de correr, até porque tem de levar consigo aquele enorme corpanzil, a reboque, mas não se furta a umas corridinhas rijas atrás de uma bola, por exemplo. Ninguém se conforma. Ninguém acredita. O velho está destruído, não come nem dorme, fala sozinho, torce as mãos num desespero, num desespero.

Hoje é o décimo sexto dia. Haja esperança.

O Afonso tem seis anos. É um Berner Sennenhund.

Fumar bloqueia os neurónios e provoca ataques de estupidez e imbecilidade

«Esta é uma medida que visa recuperar os clientes fumadores, impedidos de fumar no interior dos cafés pela nova lei do Tabaco.

"Este projecto surgiu no âmbito da entrada em vigor da nova lei do tabaco, recolhemos algumas sugestões alternativas para espaços exteriores e vamos lançar duas estruturas de esplanadas: uma da Sagres, dedicada especialmente ao Euro2008, e outra estruturada para todo o ano, mas ambas com um ambiente acolhedor e mobiliário mais confortável", explicou à Lusa Nuno Pinto de Magalhães, da Sociedade Central de Cervejas (SCC), uma das empresas envolvidas.

Em parceria com a Galp Energia e a Sport TV, a Associação da Restauração e Similares de Portugal (ARESP) e a Central de Cervejas vão apostar em novos espaços com aquecedores exteriores, pára-ventos, ecrãs para transmitir futebol e outros programas, bem como em cadeiras mais ergonómicas e cómodas, tudo rodeado por um ambiente acolhedor.

"O principal objectivo é devolver aos fumadores um espaço confortável onde possam estar e onde todos possam conviver novamente", sublinhou Pinto de Magalhães.

A nível nacional estão já previstas cerca de 50 esplanadas Sagres e dez estruturas a longo prazo, que irão ter, segundo o assessor, toda a "comodidade e infra-estruturas necessárias".

"Estamos a desenvolver parcerias com algumas Câmaras Municipais que já se mostraram interessadas em juntar-se ao projecto e os estabelecimentos podem, em conjunto com as autarquias, adquirir este tipo de estruturas", explicou o assessor.

Estas esplanadas são apresentadas na Horexpo - Salão Internacional de Hotelaria, Restauração e Vending, em Lisboa, e Pinto de Magalhães acredita que o número de pedidos pode ainda aumentar.

Com a nova lei do tabaco, que entrou em vigor a 1 de Janeiro, é proibido fumar nos serviços públicos e nos locais de atendimento directo ao público, nos locais de trabalho, unidades de saúde, lares de idosos, estabelecimentos de ensino, museus e centros culturais, centros comerciais, estabelecimentos hoteleiros, aeroportos e nos meios de transporte.

A lei prevê contudo algumas excepções, permitindo a criação de espaços próprios para fumadores desde que cumpram os seguintes requisitos: as áreas estarem devidamente sinalizadas e separadas fisicamente das restantes instalações ou disporem de dispositivos de ventilação adequados e a existência de um sistema de extracção de fumo directamente para o exterior.

As multas para quem puxar de um cigarro em espaços fechados e fora das zonas previstas para fumadores oscilam entre os 50 e os 750 euros e entre os 50 e os mil euros para os proprietários de estabelecimentos privados e órgãos directivos dos serviços da Administração Pública que não cumpram a legislação.»

Agência Lusa, 31.03.08.


Será necessário mais alguma coisa, depois disto? Será realmente incomensurável a estupidez dos fumadores? Será possível que o tabaco iniba totalmente o raciocínio?

Bom, para quem fuma uma média de 3 maços por dia, como é o meu caso, não vou jurar que não tenha ficado totalmente estúpido, visto que me intoxico sistematicamente há mais de trinta e cinco anos, mas ao menos esta acho que entendi: com que então, desde que existam lonas em vez de paredes, já não há problema nenhum, não é isso? Se o "espaço" não for totalmente fechado, se tiver umas frinchinhas por onde entre o ar, se houver painéis em acrílico ou plástico em vez de tijolos e argamassa, já não é um "espaço público", não é assim? Desde que o local seja amovível, em vez de em alvenaria, então tudo jóia, a lei já não se aplica! Como se não fosse possível "mover" uma casa, à força de camartelo, e pô-la no chão em menos de um fósforo! Como se num "estabelecimento convencional" não existissem portas e janelas e frinchas e as mesmíssimas correntes de ar! Como se, enfim, fossemos todos, fumadores e não fumadores, uma cambada de mentecaptos, incapazes de entender a mais evidente, ridícula, nojenta das vigarices!

O proprietário de um simples café de bairro não pode optar pelo letreiro azul, tal é a carga de despesas e de chatices em que se iria meter, mas se a coisa for patrocinada pela Sociedade Central de Cervejas, e se a dita Sociedade Central de Cervejas mandar à merda o Governo, a ASAE, a DGS, a legislação antitabagista, os legisladores que semelhante cagada produziram e ainda o mais elementar senso comum, então sim, já pode, não há crise. Eis, em linhas gerais e no essencial, o que esta notícia veicula. A pretexto do Campeonato da Europa de Futebol e das frinchas que existem entre os panos das tendas, escorados em tão belos quanto cretinos álibis, os felizes empresários da indústria cervejeira - com o beneplácito e a cobertura das entidades governamentais - preparam-se agora para impingir mais esta patranha a toda a pátria tuga, por atacado.

Com esta maravilhosa descoberta científica, provinda de tão ilustres cabecinhas, fica a humanidade em geral e a terra lusitana em particular municiada de uma nova, porém antiga modalidade de restauração (e afins): a hotelaria nómada. Lá voltaremos, assim sendo, aos bons velhos tempos do monta-tenda, desmonta-tenda; nada má, a ideia, realmente; uma cafetaria ambulante, devemos concordar, e quem diz cafetaria diz discoteca ou tasca, pois é mesmo muito bem pensado. Com suavíssimas e drapejantes paredes e tectos em pano ou em tela, de facto, muito menos gente - quase ninguém - se arriscará a dar cabeçadas inadvertidas ou a partir algum osso numa ombreira, por exemplo. Claro que não dará muito jeito para um gajo encostar o pé à parede, também por exemplo, porque não está lá parede nenhuma, mas a gente acaba por se habituar, é como tudo. Sim senhor. Nada mal lembrado. Eles, nesta, esmeraram-se.

Bem. Mas quem é que "eles" pensam que enganam? Com que espécie de totós é que "eles" pensam que estão a lidar? E, já agora, quem são "eles", afinal?

"Eles" são os mesmos que andaram décadas a promover o cigarro como um bem em si, como factor de prestígio e como sinal de distinção e de promoção social. "Eles" são aqueles que defendem hoje, com unhas e dentes, raivosos como mastins, o que ainda ontem lhes era completamente indiferente. "Eles" são os iluminados politicamente correctos, os que se julgam tocados pelo dever de obrigar todos os outros a não comer uma simples maçã, até a de Adão, se esse fruto não estiver devidamente calibrado, desinfectado, etiquetado e validado para consumo. "Eles" são os polícias de costumes modernaços, são aqueles tipinhos e tipinhas que, imbuídos de espírito de missão (ou o diabo que os carregue), sinceramente acreditam que o próprio Deus, em pessoa, lhes tocou no ombro e lhes disse, com voz cavernosa: "Ide, e chateai o vosso semelhante."

São apóstolos de um novo Deus, atlético e em forma, sorridente - já não de pura bondade mas à força de muitas idas ao dentista - e compassivo, por um lado, mas terrivelmente vingativo e implacável para com os desgraçados que se atreverem a penetrar no McDonald's, na Pizza Hut, na Ginjinha do Rossio ou em qualquer outro templo da dissolução e do vício. É um Deus da norma e do regulamento, extremamente higiénico, porque impoluto passou de moda, que exige dos seus fiéis uma confiança absolutamente cega em todos os Seus dogmas e ditames, já que em troca da fé, e também da cegueira, aos ditos fiéis está prometida e reservada uma estadia grátis no Paraíso para toda a eternidade; ou seja, os tipos estão convencidos de que, lá por não fumar e não comer nem beber porcarias, vão andar por aí aos caídos até que a vaca tussa, por assim dizer.

Pois a mim não convencem eles. Quero lá saber do Paraíso para alguma coisa. Não gramo férias nem à lei da bala e, além disso, acho chato como o raio essa coisa de andar por aí indefinidamente, com guizos nos pés e asinhas nas costas, a maçar toda a gente com uma musiquinha que tem tanto de celestial como de aborrecida. Chateia-me mortalmente fazer figura de parvo, em suma, e nem que me pagassem um balúrdio por mês eu iria aguentar essa chatice da vida eterna, ou lá o que é.

Mas enfim, deixemos esse tipo de trapalhadas, vida eterna, sítios pouco recomendáveis onde um gajo tem de ficar a ver passar os comboios, anjinhos com suas harpas, e assim, voltemos à terra e a coisas mais comezinhas e tangíveis.

Em suma, era isto. Para esses escuteiros da saúde compulsiva, para esses soldadinhos de chumbo do exército de salvação forçada, para toda essa gentinha que, certamente imbuída das melhores intenções, pretende conduzir-me de volta ao bom caminho ou fazer-me regressar ao redil da pureza e da magreza, do ar puro e da silhueta esbelta, duas palavrinhas: vão bardamerda. Quanto aos outros, os émulos legais, policiais e governamentais, mai-los seus acólitos industriais da cervejola marada, para esses não vão duas palavras mas apenas uma: também.




Ao abrigo da lei e aproveitando esta "ideia", aqui ficam algumas sugestões para donos de tascas, restaurantes, cafés, discotecas, bares, etc.
1. Parta as paredes do estabelecimento e substitua-as por lonas, mantendo os pilares e traves-mestras; logo a seguir, corra à Conservatória do Registo Predial e altere a inscrição na matriz para "esplanada".
2. Se os gajos da inspecção refilarem por causa de o tecto ser em telha, ponha uma cobertura de lona por cima da telha.
3. Se não quiser gramar com o esterco das obras, arranque apenas as portas e as janelas e monte a tenda pelo lado de dentro do estabelecimento; pode aproveitar os pilares da construção para pendurar a dita, poupando assim nos varões de prumo e nas estacas de fixação.
4. Caso o chateiem por afinal aquela merda ser uma casa com uma tenda lá dentro, responda com o ar mais sério deste mundo que não senhor, que é uma tenda com uma decoração exterior futurista (ou passadista, à escolha). E, principalmente, não se esqueça de referir que aquilo ali entra ar por todos os lados. E do bom.
5. Se "eles" (já sabe quem são) não forem na conversa, então lá terá de ser: arranje uma unidade de artilharia (ofereça-lhes umas bejecas à borla, a tropa é muito dada a ajudar o próximo) e eles que mandem o edifício pelos ares, com toda a limpeza; depois de remover algum resto de entulho que lá fique, monte a tenda no terreno livre e inaugure o seu novo estabelecimento, completamente remodelado e exclusivamente para fumadores.
6. No caso (improvável) de "eles" andarem a rondar-lhe a porta, não se acanhe: em vez de artilharia pesada, dê uma palavrinha a qualquer bacano da Força Aérea. Vai ver que eles não se importam nada de lhe despejar umas bombas de fragmentação mesmo em cheio na porcaria do boteco. Então sim, depois de tapar o buraco poderá finalmente montar a sua legalíssima, óptima, porreiraça tendinha de comes e bebes (ou afim).

Com um bocadinho de sorte, com esta solução, se calhar vai passar a pagar menos impostos (as tendas pagam impostos?) e ainda por cima os tipos da Super Bock terão o maior prazer em ganhar à concorrência mais um ponto de venda, por um lado, e pagar-lhe a si um dinheirão pela publicidade, por outro.

Uma mina.