segunda-feira, 4 de agosto de 2008

e-cigarros

cigarro electrónico

Não deita fumo, não produz cinza nem sobram beatas. Não está previsto na lei - logo, é legal - e não é crível que alguém se possa chatear por ter um "fumador" destes "e-cigarros" ao lado, mesmo num restaurante apinhado de gente.

Ou seja, e isso já não é nada mau, acabou-se de vez a proibição de fumar seja onde for, mesmo nos aviões, em plena coxia, ou até numa circunspecta e grave sala de audiências de qualquer tribunal. Quanto mais não seja pela inolvidável experiência (e pelo gozo que deve dar a cara desconsolada dos antitabagistas circunstantes), valerá a pena comprar um "gadget" destes. O prazer de fumar em plenas trombas dos puritanos macabros valerá com certeza o preço (80 €) - não muito convidativo, mas vale pela "causa" de os chatear mesmo, aos tais puritanos - e, ainda que não seja exactamente a mesma coisa que fumar um verdadeiro cigarro, até pode ser que ao menos se consiga com isto evitar os efeitos colaterais da abstinência prolongada.

Esta nova engenhoca fumadora implica no imediato uma espécie de pequena revolução nos costumes: liquidado na origem o pretexto (o fumo passivo) para a proibição, será curioso verificar agora o que mais será inventado para perseguir os novíssimos e-fumadores. Tenho um palpite sobre isto, e um palpite que não é nada de difícil digestão nem requer grandes dotes de adivinhação: deparando com o e-fumo, coisa que nunca tinha passado pela cabeça do mais macabro dos fundamentalistas, aqueles que extraordinariamente se preocupam com a saúde alheia hão-de alegar que ninguém tem o direito de dar cabo da própria saúde.

Nisto, sinceramente, até estou de acordo... para variar. De facto, não me custa absolutamente nada presumir que este "fumo electrónico" poderá vir a ter, a longo ou a médio prazo, consequências muito mais perniciosas para os "fumadores" do que o tabaco propriamente dito. Existe uma reacção química, envolvendo diversas substâncias, todas elas artificiais, que injecta uma certa dose de nicotina no organismo; portanto, pelo menos em teoria, o nicotinodependente poderá aplacar momentânea e transitoriamente a sua dependência. Porém, esta invenção é ainda muito recente e não há, por conseguinte, quaisquer termos de comparação nem estudos ou estatísticas que suportem ou contradigam a sua (relativa) inocuidade. Fumar cigarros (uma invenção de finais do século XVIII) é muito mais pernicioso do que fumar por cachimbo e este muito mais perigoso para a saúde do que os charutos; tudo depende do grau de industrialização, os processos de fabrico, as transformações e os aditivos químicos por que o produto passa, desde a plantação até ao acender do fósforo, e finalmente pela forma ou pelo dispositivo que se usa para inalar (ou não) o tabaco propriamente dito.

No caso dos e-cigarros pura e simplesmente não existe tabaco algum, apenas o seu "princípio activo", por assim dizer, a nicotina. Ora, se o hábito de fumar se resumisse à nicotina, então seria facílimo deixar de fumar - o que, como sabemos, mesmo com injecções, pensos e substitutos diversos daquela substância, é praticamente impossível.

Sem força de vontade, nada feito. Quem quer deixar de fumar, tem de ter primeiro a vontade e depois a força. Só assim conseguirá largar de vez o vício.

Mas, para quem não quer, isto é, para aqueles que nunca tentaram nem querem tentar deixar de fumar, os e-cigarros podem ser uma boa forma de contornar a legislação nacional-socialista vigente.

Uma boa alternativa para os voos intercontinentais, para as longuíssimas, compridíssimas, chatérrimas viagens por via férrea ou por estrada, e também para aqueles eventos públicos onde toda a gente, tão saudável que até enjoa, devora comida até à náusea, emborca bebidas alcoólicas até ao vómito e debita parvoíces até ao infinito.

Fumemos aquela porcaria, pois, os e-cigarros. E que se danem os e-nazis.


Este post foi também publicado no blog do Apdeites.

2 comentários:

Curiosa disse...

Hum... estas geringonças não me convencem, mantenho o belo do cigarro.

A propósito desta lei e dos espaços onde se pode fumar:
no outro dia, tomava eu um café relaxadamente enquanto esfumaçava e folheava um jornal, quando uma perua me diz "o seu fumo está-me a incomodar".
Eu que até sempre respeitei os passivos, deu-me uma daquelas ganas e responda-lhe "e você o meu fumo. Tá mal? Mude-se para a área azul"

Quer dizer, já não basta o fundamentalismo, como ainda me chateiam nas zonas onde posso fumar. Isto é dose.

JPG disse...

Eu tinha apostado em chatices graves nas esplanadas, este Verão. Ainda vi pouco disso e não há notícias de mortos ou feridos, mas já tive o prazer de apontar (por 2 vezes) para o letreirinho azul, à laia de resposta. Vale pelo mandamento (mandá-los bardamerda), mas de forma mais educada.